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POR QUE SOU FELIZ EM PG - Josué Corrêa Fernandes
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Recente artigo publicado em jornal de Curitiba e no "D’Pontaponta", de autoria do renomado crítico literário e escritor Miguel Sanches Neto, provocou intensas polêmicas em vários círculos princesinos. Correspondências eletrônicas e postais foram mandadas, com protestos sobre as colocações do ilustre literato; discussões acaloradas pipocaram nos principais pontos de reunião, desde os mais prosaicos (como o Café da Baixinha) até os que se consideram porta-vozes da inteligência local (o PRI encastelado na Universidade) e a nomenklatura do Paço David Federmann. -----------------------------
Houve, assim, uma reação em cadeia por causa do que foi dito por Sanches que, filho ou neto de espanhóis como eu, nascido nas terras arroxeadas do Norte do Paraná, externou sua opinião sincera sobre Ponta Grossa. A fria leitura do que escreveu, no entanto, transmite a idéia de que o burgo campesino é uma titica, um apertado espaço de miséria e de amargura, um ambiente opressivo, uma gaiola aflitiva (que nem dourada se mostra!). -----------------------------
Sem xenofobismo e sem a menor paixão, creio que diversos dos conceitos emitidos pelo conspícuo professor universitário, doutor em letras, autor de vários livros (que tenho e que já li), não coincidem com os meus, muito embora a grande distância que nos separa em termos de verve e de preparo literários: afinal, sou apenas um escrevinhador; alguém que, lidando nas searas jurídicas há trinta e tantos anos, não consegue se desvincular de vezos que a toga e a beca deixaram impressos para sempre. -----------------------------
Mas afinal, é preciso ir ao ponto nuclear da pendenga(!).-----------------------------
- Miguel Sanches, ao escrever a deleitável e irritante crônica "Ser feliz em Ponta Grossa", tornou-se, com efeito, o Diego Mainardes da cidade. Muito do que disse coincide com a opinião geral: os escalopinhos, p.ex., que, da mais borrachenta carne de pescoço, nunca foram promovidos a mignon; o vento inclemente que afunila na Rua XV e que já batizou o entroncamento desta com a Augusto Ribas, de esquina da tuberculose; as teias de aranha que protegem as garrafas de cachaça e a diversificada fauna dos potes-de-sangue da Rua da Estação... -----------------------------
Mas existem pontos que não fazem justiça à Princesa dos Campos (um dos muitos cognomes hiperbólicos de Ponta Grossa!). -----------------------------
A começar pela citação de Augusto Frederico Schmidt que, ao fazer a apreciação dos "4 Poemas" de Brasil Pinheiro Machado, não fala apenas do vento que derruba coisas nas casas e que levanta poeira vermelha: diz, também, que "Ponta Grossa progride. Avança, encostada nas colinas, estende-se, alarga-se"; que "de manhãzinha enormes carros puxados por quatro e seis cavalos normandos, passam na rua com gente loura, de olhos azuis, polacos, alemães, russos, sei lá, que vêm do mato trazendo legumes frescos... Então o sujeito que sente a maravilha da diferença, fica banzando pasmo: meu Deus, no Brasil há de tudo!". E as palavras do renomado poeta brasileiro podem, perfeitamente, ser complementadas pelas de Nestor Victor, o jovem polígrafo que, na clássica obra "A Terra do Futuro – Impressões do Paraná", escrita no início do século passado, dedica um capítulo inteiro a Ponta Grossa, falando de seus avanços e de seus campos "de esmeralda, que o sol redoura ainda um tanto vivaz, na suavidade bucólica que a brisa da tarde estabelecia". Emprestando palavras do malogrado jurista Miguel de Quadros, esse mesmo autor, entusiasmado, ainda diz: "Ponta Grossa cativa, acredite, a quem aqui respira por certo tempo. Quando dela me alongo nas viagens de carro ou a cavalo a que a profissão me obriga, e que volto, avistando-a já a 20 ou 30 quilômetros de distância, na eminência em que se acha, a alma me sorri como se fosse de ternura filial. Depois, eu não conheço campos tão vária, profusa e lindamente floridos como os dos arredores desta terra abençoada. Assim, a quem chega ou apenas volta, parece que ela nos recebe em festa, no regozijo das antigas bodas. E outra qualidade têm estes homens: não há quem seja mais hospitaleiro do que eles, principalmente tratando-se de recém-chegados que aqui se vem instalar e cuja capacidade ou disposição prometa um elemento cooperador ao progresso da terra".-----------------------------
- Apesar de a cidade não corresponder ao éden (ou ao Paiquerê, para ser mais paranista), não há como negar que Ponta Grossa possui personalidade própria que, muitas vezes, não agrada aos adventícios. Ela é tímida e um tanto silenciosa, mas não bajula ninguém e não tem medo de se opor, de peito aberto, a pessoas e a governos que a oprimem ou que a desrespeitam, como foi o caso de Lerner (indiferente, no segundo mandato, às premências locais) e como é o caso presente de Requião, com o fechamento do Curso de Medicina. -----------------------------
Homens pontagrossenses, de cor cinza, ombros arcados e passos lentos, foram os que escreveram grande parte da história do Paraná. Com ampla visão administrativa, competência e integridade. Manoel Ribas, p. ex., autodidata e folclórico nas decisões, foi quem propiciou o boom do Norte do Paraná, criando Londrina por decreto, demonstrando que o café também podia ser plantado por aquelas bandas e não apenas em terras paulistas, abrindo 700 quilômetros da Rodovia do Cerne para escoamento da produção pelo Porto de Paranaguá e resgatando, para o domínio do Estado, um quarto de seus 200.000 km2. de território, objeto de negociatas e de grilagens. À essa mesma categoria de acanhados, pertence Flávio Carvalho Guimarães, senador por duas vezes, filólogo, escritor, presidente da Comissão de Educação e Cultura que escreveu a mais aperfeiçoada Constituição da República (Carta de 1946), alguém que se dizia loucamente apaixonado por Ponta Grossa. -----------------------------
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26/02/2005 Publicada por todo-aquele-que-escrever
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